LIVRE

Sonoridades entre repouso e movimento

Cacá Machado

 

            Antonio Loureiro tem uma voz inconfundível. Não digo somente em relação ao seu timbre mas em algo maior, bem maior, algo que poderíamos chamar de sonoridade. Sonoridade que se constrói em múltiplas camadas: desde aquela que sai propriamente da intimidade da sua voz, às vezes doce, meio esfumaçada ou em fluídos falsetes, até aquelas que se configuram no seu jeito expansivo, preciso e livre para compor e atacar o piano, o vibrafone e a bateria. Tudo sob o signo da invenção. Sempre.

            A canção “Algum lugar”, parceria com o excelente compositor e letrista Makely Ka, quarta faixa do novo álbum de Antonio, Livre, dá uma boa pista para aproximação da obra. O movimento cego de partida em direção à “algum lugar” (“o universo”) aponta, na verdade, para “um não lugar”, pois, como canta o sujeito, “não me reconheço”. O que parece impulsionar o movimento é, ao contrário do esperado, o desejo pelo recolhimento (“uma pausa"e um silêncio”). Um paradoxo, portanto, entre movimento e repouso alimenta um giro sem fim. A despeito do lugar algum que deseja ir, a voz lírica da canção precisa, no fundo, é de movimento. As oscilações da condução rítmica do arranjo ajudam a sugerir isso. Mas se existe uma evidente dimensão corporal neste dispositivo, também percebemos, por outro lado, uma certa sensação distópica, e crítica aos desequilíbrios ecológicos e sociais do mundo contemporâneo, que permeia o ecossistema do álbum como um todo – mais evidente em canções como “Jequitibá", “Resistência” e, sobretudo, em “Mad Man”.

            Exceção, em parte, para a faixa de abertura: “Meu filho nasceu!” é, como não poderia deixar de ser, uma canção solar e afirmativa. Mas ao modo das Minas Gerais: meio enigmática, meio melancólica, meio tortuosa, mas sempre precisa nas intenções. Um modo que se traduz por uma sonoridade única e reconhecível tanto em Milton Nascimento, Toninho Horta e Lô Borges como em Kristoff Silva, Makely Ka e Pablo Castro, para ficarmos apenas em alguns. Uma sonoridade expandida melódica e harmonicamente baseada em fluxos rítmicos vigorosos e assimétricos. Lugar preciso e precioso onde Antonio Loureiro está profundamente enraizado.

            Mas, como na voz lírica da canção, a partir do recolhimento Antonio busca se lançar ao universo. E aí o exímio multi-instrumentista e compositor se encontra com o Jazz. Não qualquer Jazz, mas aquele que cruzou com a música mineira pela ponte criada entres os guitarristas Toninho Horta e Pat Metheny, por exemplo, nos anos 1980/90. Talvez, venha daí o uso dos teclados que atravessam o disco e trazem certa atmosfera “vintage” que lembram, por exemplo, a sonoridade de Lyle Mays, tecladista do Pat Metheny Group, ou as levadas e os ostinatos assimétricos do álbum First circle (1984) do mesmo grupo. A quinta faixa de Livre, “Caipira”, é um tema instrumental que dialoga intensamente com este ambiente, sobretudo, pela presença marcante do guitarrista americano Kurt Rosenwinkel. Ícone mundial em seu instrumento. Mais do isso, a presença de Kurt é indicativa da consolidação de um núcleo criativo, base do álbum Livre, formando por Antonio, o baixista Frederico Heliodoro e o guitarrista Pedro Martins e que tem em Kurt uma espécie de olho mágico: lente côncava e convexa que acolhe e projeta a sonoridade do núcleo para o mundo. Parêntesis: o último trabalho de Kurt, o álbum Caipi, tem esse núcleo criativo tanto nas gravações como na turnê mundial.

            Mas Livre ainda tem outras camadas de sonoridades. A escolha de certos timbres, grooves e procedimentos formais dos arranjos dialogam com a cena da música eletrônica contemporânea. O resultado tem um patamar altíssimo de inventividade porque cria uma  sonoridade original construída sob a oscilação entre o fluxo jazzístico e as interrupções e descontinuidades do mundo eletrônico. A canção “Mad Man”, em parceria e interpretada por Genevieve Artadi, é o melhor exemplo: “there’s no scape/no scape/from his game”. Canção dura e interrompida, algo como um curto-circuito em si mesmo.

            Difícil para o ouvinte que não viveu o processo de criação de um álbum entender concretamente o papel do produtor musical. Mas aqui o trabalho de Tó Brandileone salta aos olhos (e ouvidos!) pela coerência e pelo talento em equilibrar as diferentes camadas complexas  que formam a sonoridade desta obra.

            E no fim, em “Livre”, a nona faixa que dá título ao álbum, resta a voz de Antonio: “e eu podia ser eu/e eu queria ser eu/e eu podia ser”. Podia não. É. Antonio é voz autoral e definidora de novas sonoridades: Livre inaugura este lugar.    

© ANTONIO LOUREIRO